A Vida é um Jogo

Infelizmente não prestei muita atenção quando estavam explicando as regras.

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E você tá pronta pra morrer? Ué, eu já nasci pronta, só não estou com pressa.

Se a vida é um jogo eu preferiria que fosse aquele curling raiz, que a galera jogava com o varredor em uma mão, uma cerveja na outra e o cigarro no canto da boca.

Só essa semana fiz:

– feijão com linguiça, cebola roxa, cheiro verde, queijo coalho e farinha

– torta de cebola e queijo

– espaguete com azeite, cebola, tomate e ovo frito

– linguiça com molho de tomate e batata

… comida pode ser uma forma de carinho.

Sim, tenho máquina de cápsulas. Tenho uma cafeteira elétrica. Tenho uma cafeteira francesa. Já tive uma italiana, pretendendo comprar outra. Mas ainda prefiro o café coado no pano.

Acho que nunca tinha recebido um “oi, sumida”, foi engraçado.

Vamos trazer pra cá as lucianas espalhadas nos blogs por aí? vamos:
Nancy retira os lençóis da cama em movimentos lentos, inconscientes, automáticos, como uma presteza alienada que vem da repetição. O cheiro de suor, esperma e gim entranhado no linho, as fronhas com saliva e sangue. Na vitrola antiquada que ela preserva como os sonhos juvenis, a voz rouca em tangos fora de moda. Apaga o abajur, acende a luz branca como de hospital que por um momento lhe ofusca. Joga os panos no balde roupa suja e o movimento brusco lhe dói a base da espinha. Dolorida. Do tempo gasto, sentada retesada e tensa à espera. Do telefonema. Da chegada. Do pedido. Ele. O certo. Que não veio, não ligou, não pediu. Nunca. Ela bem tentou acertar. Não é esse. Nem esse. Nem aquele outro. Nem, não, nem, não. Não é com você, não é com ninguém, é com a pessoa que eu quero mais bem. Na infância parecia fácil. Vamos provando. Uma boca, outra, mais. Pra encontrar o Amor, maiúsculo, único, redentor. Que não chegou, não veio, não ligou. Até agora, ela pensa. Ela suspira, impaciente consigo mesma. Já fez de tudo. Deu tudo. Atenção, carinho, dinheiro. O corpo. Desde que saiu da brincadeira de roda infantil e começou a falar de amor, deu, deu, deu. Entregou tanto que nem sabe se sobrou alguma coisa dela mesma. E o Amor? O Amor que só bate na porta ao lado. Que só frequenta as festas que ela, exausta das apresentações repetidas no pequeno palco, deixa de ir. O Amor que ela quis que fosse desde o primeiro namoro em pé, roçando, roçando, o pé do muro feito motel. É o Amor? Por favor, seja, seja, a boca aberta, os abraços rápidos, os gemidos desconexos, um, outro, mais, um, outro, outro, a vagina cada vez mais seca, o corpo mais árido, o sonho mais cinza. As promessas. Meio riso, meio soluço quando lembra das promessas que recebeu para dizer um sim que diria de qualquer maneira. Que fez, acreditando que era a última vez. Os braços abertos na cama. As mãos postas na frente do altarzinho improvisado no canto do camarim. Que seja Ele, dessa vez. Eles que não voltam. Não voltaram, não voltavam, não voltam, não eram. Iam, seguiam, um mandou um postal de Roma. Parecia tão bom, quer uma bebida? O que você está bebendo? Um gim pra mim também. Parecia tão bom, o paletó sem corte que ela já viu tantas vezes, a gravata berrante, a piada fácil. A fome. Parecia tão bom, também este, primeira fila, olhos fixos na suas pernas enquanto ela faz o que tem que fazer no minúsculo palco, também ele, mais esse, quem sabe aquele, ou este mesmo, diz sim, sim, sim, ele meio apressado e resfolega e goza tão rápido mas jurou que ela era especial quando lhe estava subindo a saia. Os braços forçados nas costas, ele querendo por dentro, por fora, por cima, por trás, puxando o cabelo, metendo e saindo, metendo e saindo, saindo, saindo, saindo, indo. Este não volta, ela sabe, nem chora mais como nas primeiras vezes enquanto retira os lençóis e faz as contas da lavanderia, babou na fronha, mordeu o lábio até sangrar, pelo menos gozou fora. Mais tarde, depois do show, depois de tudo, ignorará a cama feita, pegará o lençol meio esgarçado que traz desde a juventude e dormirá no chão. É com este desconforto que ela disfarça o da alma. Senta na pequena penteadeira pra fazer a maquiagem, ainda tem um espetáculo hoje, senta de pernas bem fechadas, a pélvis dolorida, as coxas ardendo, os pés juntos e a jura: nunca mais. Batem à porta, a resposta vem automática. Porque é dessas, que só dizem sim.

lençol
Trabalho de Heather Horton

 

 

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