Distâncias

Envelhecer é sentir, com mais e mais nitidez, a diferença eu/os outros. E faz sentido porque, em uma visão não-essencialista, é com mais viver que vamos nos tornando cada vez mais únicos, diferenciados, específicos. Quanto mais tempo de vida, mais escolhas, mais histórias, mais memórias. Envelhecemos e sentimos mais a diferença, eu dizia, e cada um faz com isso o que pode/quer/consegue. Há os mais funestos que querem aniquilá-la. Há os que negam a alteridade. Os que disfarçam e fazem de conta que não a percebem. Os que investem na busca das semelhanças, nas narrativas de encontro. Os que se resignam com os desencontros e seguem um tanto cínicos ou ressabiados. Mas há (oiê) os que a admiram, se divertem, se encantam pelo diverso. Os que se apaixonam pela singularidade, a sua, a do outro e, embora para chegar a este lugar seja preciso acolher e ser atravessado pela solidão, daqui de onde estou espiando, a vista é linda.

A escolha é sempre difícil, ninguém nos contou a verdade.
Ou bem a dor de estar viva e sentindo.
Ou bem a beleza de não sentir mais nada: morre-se.

Alone in London (1894) by Thomas Alexander Ferguson Graham.

(2011) Eu tenho este problema com pontes. O famoso: não é você, sou eu. Pontes são o reconhecimento da distância. Da diferença no terreno, dos abismos, dos rios que não se consegue atravessar na valentia e no braço. Eu gosto da vizinhança. Da proximidade. Gosto de estar junto, da cumplicidade fácil, do entendimento tácito. E, no entanto. Pois é, no entanto. Eu sei, todos sabem, não é assim o tempo todo. Não é assim a vida. O querer bem não basta. E saber que o bem querer não basta também não basta. Eu vejo as pessoas partindo, saindo de mim, sinto o vazio, a saudade, sinto as pequenas erosões diárias, sinto, sinto tanto, sinto muito e como um avestruz do afeto vou ficando quieta só querendo que nada disso acontecesse. E não faço nada. E depois, depois os rios que não se atravessa no braço, os abismos, as diferenças nos terrenos. Depois, as distâncias. E as pontes que não sei construir.

Ou envelhecer é o sorriso aliviado de descobrir que não precisamos de todas as pontes, pode ser um barquinho ou mesmo um mirante.

A gente descuida um minutinho e de repente tá enterrada na bagunça.

Status: devorando Karin Slaughter.

eu conto os dias, conto as horas pra te ver“, férias.

Status: amofinando.

Tem toda essa vida que eu não vou viver e que, em certas noites, me assombra como uma fantasma herdado por acaso. Toda essa vida que eu não vou viver, que eu escolhi não viver, esta vida dói em certas noites como se fosse a única vida possível de ser vivida. Toda essa vida que eu não vou viver e que, ainda assim, é minha, uma eu possível. Uma vida que não existe mas em certas noites me lembra o impossível que é essa vida minha que é.

 

 

2 comentários em “Distâncias

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