Tomara

O meu mal é fome.

Tenho lido muitos romances policiais. Quem me conhece sabe bem o porquê. O lado positivo é que voltei a ler um livro por dia. O lado dureza é que eu os atravesso, eles me confortam, no dia seguinte o mundo tá aí, bagunçado e me bagunçando.

Mas vai começar o Pan e a seguir o Parapan. Por umas semanas estarei dopada de esportes.

Também me conforta saber que em algum lugar há festa. Há gente cozinhando, gente trepando, gente balançando um bebê em uma rede, gente pintando um quadro, gente segurando a mão de outra gente, gente espichando o nariz pra sentir cheiro de terra molhada pela chuva, gente catando folhinha de manjericão, gente. Me conforta imaginar que o que há de humano resiste.

Cada dia mais incompetente. Tô me tornando realmente muito boa nisso.

Todos os dias, na mesma hora, como uma caricatura ruim de uma boa música, ele antecipa o chamado que irrita. Exasperado, evitando a resposta mal-humorada que se forma na ponta da língua, entra no faz de conta de uma surdez conveniente. Será que já não se pode ter um tempinho pra fazer o que se tem pra fazer? É um tal de venha logo jantar senão esfria e a que horas mesmo você vai trocarogás-arrumarapia-consertaraestante? que não lhe resta muito pra dedicar-se à máquina. E, no entanto, ele vislumbra, rasgando o suburbano véu do seu cotidiano, que há uma coisa que precisa ser dita. Ser escrita. Por ele. Só por ele, ela, a tal frase, pode ser escrita. Uma frase que – e ele quase se engasga com isso, como se engasgou com a grosseria que não disse – uma frase que pode mudar. Mudar o quê? Ele não sabe. Ele só sabe que precisa escrevê-la, lançá-la para além da vista de sua janela: um muro. É assim toda a sua vida, cercada de impossibilidades. Ele tem tanto guardado, mas suspeita que já nem encontraria, no labirinto que se tornou, toda essa riqueza prometida. Mas a frase, ah, a frase vai transcender o velho abajur de ferro, vai transcender a vista da janela, a máquina comprada de segunda mão, a blusa de má qualidade, a mesinha apertada no canto da sala, o aquecedor que resfolega como um corredor cansado, vai transcender todos os chamados insistentes para comer antes que esfrie e todos os apelos de consertos que não fez e suspeita que nunca fará. A frase que ele sente entalando as respostas todas. A frase que o engasga e que potencialmente o redime. A frase que tirará a impaciência dos olhos e se ouvirá como um suspiro alto. Por enquanto, segue, pão com café, metrô, funcionário de oito às dezoito, metrô e alguns poucos minutos junto à máquina, esperando que a frase chegue antes do venha jantar que já vai esfriar. O muro, depois da janela, parece que o desafia. É por isso que, quando se irrita, ele lhe vira a cara. Não quer saber que o muro é um espelho.

Relendo um post antigo em que escrevi assim: “aí cheguei em casa“. Eu ri solto porque sou aquela pessoa que chama de casa qualquer lugar em que durmo mais de uma noite.

Mas era Lisboa. Sim, eu te amo.

Tem aquela canção, meio promessa, meio ameaça: o pra sempre, sempre acaba. Tomara.

Da beleza avassaladora do tempo. Tempo houve em que eu não lembrava como viver sem você de tanto tempo que você estava no meu tempo. Acordei hoje e, encantada, percebi o tanto de tempo que já foi depois do tempo do esquecimento e que agora o que não lembro direito é do tempo em que nossos tempos eram um.

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