“Te amo com a memória, imperecível”

Faltam menos de duas semanas para o início dos Jogos Pan-Americanos e o canal Sportv está com uma chamada que apresenta ex-atletas que atuarão como comentaristas. Cada um deles segura, inicialmente, um objeto que remete ao seu esporte, aí tem uns escuros, um palavreado e depois o atleta solta este objeto e aparece com o uniforme do canal. Eu choro, claro. O esporte sempre me comoveu mas de uns tempos pra cá tenho ficado mais e mais sensível.

O esporte me enternece um tanto pela beleza do que um corpo humano pode ser e fazer. É plástico, é intrigante, é desafiador. E, muitas vezes, um pouquinho estranho e divertido. É bonito. Mas não é só. As olimpíadas, pan-americanos, mundiais, estas disputas falam sobre pessoas desejando ser mais. Mais que elas mesmo. Falam de treino. Falam de referências. Falam de inspiração. Falam de falta. Cada atleta em quadra ou campo me atinge pelo que faz mas também por todas as lutas e anseios que não puderam ser. Quando alguém faz bem feito parece sintetizar o eterno. Por exemplo, não sei quem inventou o tênis mas ao ver Federer em quadra tenho a certeza de que o jogo foi criado para que um dia ele o jogasse. Não importa o resultado de cada partida, o que Federer faz é arte.

Tal como a arte o esporte é aquela coisa tão completamente humana, tocante porque absurdamente inútil. Pratica-se esporte como se pinta um quadro: porque sim. Porque é humano expressar o que não se pode definir. Porque somos o nosso corpo embora ele não seja tudo que somos. Ou podemos vir a ser. Os atletas são super humanos: correm na velocidade que não alcançamos, saltam em alturas que não alcançamos, chutam, nadam, pulam, fazem coisas em ritmo e velocidade que não fazemos. Mas são super humanos também no que essa expressão traz de ambiguidade: são tão humanos, são muito gente. Sentem medo, erram, confundem-se, enfiam o pé na jaca, falham. E reconhecem a incompletude de ser humano e por isso seguem treinando, jogando, tentando, sonhando.

Esse meu sentimentalismo é um pouquinho ridículo, eu sei. Choro mesmo. Choro muito, choro cada vez mais. Fiz as pazes com isso ao ir percebendo que as lágrimas não são exatamente pelo que está sendo, mas pelo conjunto de ternuras que fui arregimentando ao longo da vida. Quando se é mais jovem cada coisa tem apenas o peso do que é. O tempo vivido vai dando camadas ao momento atual e as coisas que são são muito mais pelo que já foi. Choro hoje por todas as partidas que vi, por todos os atletas que admirei, por todos os títulos perdidos, por todas as vitórias alcançadas. O choro da alegria de hoje é potencializado por todo o riso que já sorri e o choro da desilusão hoje é o abismo de todas as derrotas, todos os fracassos, todos os impossíveis. Choro por todas as lucianas que fui, por todas as emoções que senti e continuo sentindo, porque o que a memória ama, disse Adélia, é eterno. A emoção que encontro no esporte é fora do tempo. Cada lance, cada jogo, cada campeonato é único mas é, também, a síntese da eternidade de todos os campeonatos, de todos os jogos, de todos os lances. Enquanto eu for, este amor é.

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