Cartas

Escrevo,
o que mais pode fazer quem tem o corpo no exílio? 

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Em cartas antigas ela reencontra sua letra ameninada e se surpreende como o sentir era antigo, embora não soubesse dizê-lo naquele tempo e já não se sinta no direito de fazê-lo no agora. Lamenta um tanto o que nunca foram, como ela nunca chegou a revelar – porque não compreendia o que sentia e se atinasse talvez não soubesse enunciar – o tanto que o quis em seus dias, em seu mundo, entre suas pernas.

Eles trocavam cartas. É que precisavam que o largo do tempo entre uma mensagem e outra se tornasse espaço pro bem querer que crescia tanto que escorria pelos olhos em lágrimas a que chamavam saudades e pingavam dos lábios que o outro corria a sorver e numa contradição que os encabulava quanto maior ficava o bem querer – e mais espaço exigia na vida de cada um – menos espaço permitia entre um corpo e outro quando se encontravam. Então eles trocavam cartas, escreviam palavras que nunca bastavam e guardavam nas entrelinhas todo amor-e-desejo-e-vem-viver-em-mim enquanto cobriam páginas com futebol, dias de sol, descrições extensas do local de trabalho e sonhavam viagens para se encontrarem quando o que queriam mesmo dizer era sobre perder-se um no outro.

Porque eram do tempo das escrivaninhas, ela, a chave pequena que carregava na bolsa, as cartas que escrevia toda semana e ficavam guardadas à chave na velha escrivaninha para nunca serem enviadas. Precisava de uma escrivaninha com gavetas maiores ou uma saudade menor, riu-se, após o insucesso de fechar a gaveta abarrotada transformar sua pequena e reservada tragédia em uma comédia banal.

Gosta de cartas, a menina, gosta de recebê-las, pois claro, e ainda mais de escrevê-las. Ela sente – segurando firme a caneta que insiste em rascunhar corações e flechas no papel branco – que uma carta desdenha o calendário, ignora manchetes, prescinde de motivo, sua única urgência é existir. Por que me vejo compelida a escrever? – é lida, a menina, repete Goethe. É, também, algo irônica e zomba de si mesma ao continuar: não é preciso, querido, fazer pergunta tão evidente, porque, na verdade, nada tenho para te dizer. Entretanto tuas mãos queridas receberão este papel. Assim é, a cada vez que se faz letra envelopada não o faz para dar notícias, para informar, para atualizar seu leitor do que quer que seja, embora isso possa se passar. Escreve – a menina – para ficar próxima. Como uma forma de burlar a geografia, a carta enviada é uma tentativa de ser tocada. Tuas mãos queridas receberão este papel e será como se percorressem minha pele – ela quase escreve, mas só suspira. Um papel que liga duas solidões, alguém já disse, mas não é como se sente ela, diria mais precisamente: que liga dois anseios. É assim que a menina escreve. Como se sentisse fome. E sente.

 

Sim, eu namorei por carta. Estava com essa saudade avassaladora, com essa fome do outro, com essa vontade de saber: como vai? o que você está fazendo? pensou em mim? então eu sentava e escrevia cuidadosamente uma carta. E, depois, talvez, passasse a limpo. Aí estava sem envelope, ia comprar, talvez no mesmo dia, talvez só no dia seguinte. E tinha que arrumar um tempo pra ir ao correio. Que demorava uns diazinhos pra entregar. Com sorte, não se extraviava. Daí a outra pessoa recebia, lia, se emocionava, relia, sei lá o que fazia mais. Talvez curtisse a carta um dia inteiro antes de responder. Ou dois. Ou mais. E tinha trabalho, tinha família, tinha amigos… Até que dava pra escrever. E seguia o mesmo processo: escrever, corrigir, envelopar, enviar, carteiro, eu. As palavras. Que, no primeiro momento, nem importavam no que diziam. Elas tinham valor de matéria, valiam por existir. Cada letra uma ação do outro em minha direção. Depois, sim, o conteúdo. Paquerar cada linha. Emocionar-me nas entrelinhas. Sentir a voracidade um tantinho aplacada. Entre o momento em que o ralo se abriu, querendo do outro (me dá, me diga, me ame) e o momento em que, de alguma forma, se respondeu a isso, o que eu fazia? Vivia, não é. Tinha que dar conta da ansiedade. Arrumar um jeito do tempo passar e de passar no tempo. Eu lia. Ouvia música. Via tv. Sei lá. Só sei que era um jeito de lidar com a demanda. Que envolvia uma angústia mansa e alguma displicência.

Tinha também o relacionamento ao alcance do telefone fixo. Bem “mais rápido”. Dava a vontade? Eu telefonava. Quer dizer. Tinha que estar em casa ou esperar chegar em casa. E o telefone estar desocupado do lado de cá. Aí eu ligava. E podia dar ocupado. Do lado de lá. Ou a pessoa podia ter saído. Deixava recado. Ou ligava de novo mais tarde. Ou ligava amanhã – eu escrevo e rio, veja bem, a gente não conseguia falar hoje, sei lá, 20 horas e então deixava pra amanhã meio dia. Era outro tempo, era outra eu no tempo. Sem falar que, né, o telefone era da casa. Então a gente falava uma vez no dia (tá, um montão de tempo que tirava o resto das pessoas da casa do sério, mas isso é outra conversa). E, tchanrã, agora o bem querer e a mensagem instantânea. Toda uma reorganização dessa fome. Um bem querer que é principalmente agorajáimediatamenteporquevocênãorespondeuainda. Que é um me diga, me dê, me ame e faça isso rápido. Eu ainda trabalho nisso e nem sempre com bons resultados – acrescente-se a esta urgência um certo gosto pelo drama, dez minutos sem resposta e eu vou do “morreu” ao “não me ama mais” e volto ao começo, várias vezes. Daí respiro e lembro que o outro é, bom, o outro, né. Com outra vida. Outro ritmo. Outro tempo. Dele: o tempo, o ritmo, a vida. Que ele vai encostar na minha quando der ou puder ou quiser. E o que eu posso fazer é manter o senso. De proporção. Ou de humor.

Eu faço de conta que disfarço 
enquanto anuncio anseios em enormes outdoors na beira da sua estrada.

 

Um comentário em “Cartas

  1. agora que aprendi onde fica, deixo o comentário: tô adorando essa enxurrada nova. saudades de letras. um blog é quase uma carta, né? uma carta solta. pra quem pescar. na hora em que pescar. eu gosto.
    fiquei com saudade de escrever carta também. eu, você sabe, sempre morei longe. de alguém. sempre escrevi cartas. para alguém. no Recife, em São Paulo, em Genebra. sempre tinha cartas a escrever. tem umas que eu não mandava também, e durante muito tempo esbarrava com elas. umas lembranças de outros eus que, se eu procurasse fundo, ainda estariam talvez por algum lugar escuro ali dentro do eu de hoje.
    beijo.
    bora tomar um café ali no segundo jardim?

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