Das coisas que podiam ser verdade

Eu sinto saudades de me ver nos seus olhos porque ali eu era uma alguém que me alegraria ser, como o bebê da psicanálise, ante o espelho, apaixonado pelo eu que é um outro.

Tenho inveja de tudo que os outros vivem embora suspeite – ora, a quem quero enganar? saiba – que não faria estas coisas destes jeitos.

luciana em uma palavra: preguiça.

separando roupas e sapatos e bolsas pra doar, me sentindo muito desprendida daí olho pras estantes lotadas e nada mais tenho a declarar.

Vaidade: alunos entram na minha sala na Universidade e comentam que nunca tinham visto uma sala tão legal.

No congelador: camarões grandes. Duas postas de pescada amarela. Filé de sirigado. Filé de arabaiana. Lulinhas. E álcool nas suas variadas formas geladas que a rosácea tá que tá e eu tô que tô, como cantaria a Simone.

Teve manifestação daquelas pessoas que são adeptas de terra plana, estado misturado com religião, agrotóxico na comida, reforma previdenciária e um sem número de absurdos. A ira não poderia estar melhor representada.

Xêro no cangote é sempre um bom começo.

Sou meio fã dos pecados capitais.

Olha, se você quiser eu também quero.

Status: não faça omeletes com o ovo no fiofó da galinha.

Aqui quase tudo é ficção, menos quando não é. Por exemplo, uma verdade: não há Minas em mim. Lendo a linda revista do Drops da Fal, o deslumbre e a certeza de ser sempre uma estrangeira nisso que tantos consideram o que é mais brasil brasileiro.

Faz uns tempos (me deixa, escrevo como me soa) eu fui convidada a responder um inquérito para os mortos (quanta falta me faz aquele blog). Perdeu-se não só o post com minhas respostas mas o conteúdo todo do blog (quanta falta faz ao mundo aquele blog). Hoje, fuçando emails antigos, achei as minhas respostas. Deixo aqui menos pelo que são e mais pelo que fui.

INQUÉRITO

  1. o que gostaria que se lesse na sua lápide?

Eu já pensei em tudo: da morte ao epitáfio. Negociei (e nem foi em um jogo de xadrez): quero morrer, numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba. Na lápide, posto assim: Sempre foi com muita sede ao pote.

  1. se fosse um aprendiz, quem seria o seu mestre?

Sardanapalo. Sempre mexeu com minha imaginação a inscrição: “Eu, Sardanapalo, filho de Anacindaraxes, construí Anquial em um dia. Comi, bebi, trepei. Todo o resto não vale isto.”

  1. que verbo é melhor sinónimo para amar?

Verbo, não disponho. Mas tenho dois substantivos (sexo e paciência) e uma tirinha…

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  1. qual foi a coisa mais bonita que lhe disseram?

“Do que mais gosto é acordar em você..”. Já se foram estas noites, mas é de linda lembrança ser querida assim. Outra coisa de que gosto é dos apelidos que meu pai me dava, especialmente princesa e bacorinha – daí talvez esta dinâmica esquisita que me guia. Também acharia lindo, mais lindo que tudo, se dissessem: seu filho parece tanto contigo. Mas eis coisa que não acontece.

  1. houve grandes heróis de morte matada na literatura, no cinema. Nas mitologias. Tem de matar um que viva numa dessas categorias. Quem escolhe? Porquê?

Esta pergunta revelou-me uma serial killer, pois vieram muitos à lembrança. Entre todos os gostos, fico com dois. Apetece-me matar Riobaldo e John Wayne (sei que é uma saída duplamente ilícita, pois devia escolher só um e, claro, no lugar de Wayne deveria responder Ethan ou Big Jack ou Doniphon ou Dunson ou T. Chance…mas me é impossível, eles todos se misturam em minha memória afetiva em um único herói: meio amargo, solitário e tentando desesperadamente alguma coisa que lhe escapa). Matava-os, Wayne e Riobaldo, pelo que me deram de beleza, valores, rude doçura. Matava-os pela árida paisagem que lhes molda face e fala e me diz tanto.

  1. morreu. Tem comité de honra à espera. Cinco: Ulisses, D. Quixote, Hamlet.. Quem são os outros dois? Com qual deles fala primeiro? Seja indiscreto! conte-nos um bocadinho do que lhe vai dizer.

(Um PS. completamente fora do lugar: o comitê de honra me espera onde? Dependendo de onde chego – acho – haveria, poderia haver, “diferentes gentes” a me esperar…)

Gosto de ser recebida por Ulisses, tenho a impressão de que ele será sabedor de todos as dicas e atalhos importantes e poderá me oferecer a mais relevante informação: Como funciona tudo por ali. Útil e bom papo, um membro digno de estar no tal comitê. De Hamlet, já não gosto tanto, especialmente se mantiver seu mau humor e perguntas irrespondíveis (além de, claro, haver suspeitas sobre seu odor). D. Quixote eu trato apenas de não desagradar, vai que tudo ali faz parte de seu devaneio?

Se Brás Cubas pudesse estar por perto seria o fino. Isso é, se ele mantiver a pena da galhofa e a tinta da melancolia…suponho que serão acessórios emocionais que me acompanharão no tal momento. E, completando a trupe, um certo Capitão Rodrigo.  Papearia com ele mais do que com todos, encanta-me o ar debochado e boêmio, a tenacidade, a pressa e sofreguidão, a fanfarronice, a generosidade e o pensamento libertário. Perguntaria de Bibiana só pra ter o prazer de ver seus olhos se estreitarem de satisfação e amor, antes da resposta segura.

  1. queremos terminar com simplicidade, por isso, nada de grandes questões. Já sabemos que alguém lhe contou o segredo: o que é a vida? E nós, tem um sentido a nossa existência?  Somos a pequenina parte do sonho em que alguém nos sonha? Não nos esconda nada… do Aleph de Borges aos comboios de descrentes de Whitman, diga-nos tudo o que quiser.

Contaram-me tudo do sentido da existência e eu quase tudo esqueci. Foi Vinícius, em tempos de Natal e havia demasiado uísque (Poema de Natal ). Era algo como: até o último gole (ou me confundo e isso era a regra pra entornar o copo). É assim, quando sinto a vida como uma altercação feroz, penso em Ofélia. Da vida eu não sei nada, a não ser morrê-la todo dia, mas suspeito que Adélia sabe e foi ela que me contou:

Ofélia tem os cabelos tão pretos
como quando casou.
Teve nove filhos, sendo que
tirando um que é homossexual
e outro que mexe com drogas,
os outros vão levando no normal.
Só mudou o penteado e botou dentes.
Não perdeu a cintura, nem
aquele ar de ainda serei feliz,
inocente e malvada
na mesma medida que eu,
que insisto em entender
a vida de Ofélia e a minha.

Ainda hoje passou de calça comprida
a caminho da cidade.
Os manacás cheiravam
como se o mundo não fosse o que é.

Ora, direis. Ora digo eu. Ora, ora.
Não quero contar histórias,
porque história é excremento do tempo.
Queria dizer-lhes é que somos eternos,
eu, Ofélia e os manacás.

 

Um comentário em “Das coisas que podiam ser verdade

  1. Das coisas que são indubitavelmente verdades: sua sala é muito legal (ou pode inserir aqui uma palavra extravagante a qual eu não consegui pensar).

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