Espectador

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Não era um restaurante, uma lanchonete, a sala da casa dela, nenhum desses lugares em que, por necessidade ou acaso, os rostos se espelham, os olhares se cruzam. Não, claro que ele não correria este risco. Quando ela disse: precisamos conversar, ele combinou de almoçar no parque. Agora, depois de tudo dito, os dois sentados no banco à beira do laguinho, olham não um para o outro mas para os patos que entram na água em fila, espirrando tão pouca água que quase se duvida ser real. Como os dias em technicolor que  viveram. Nunca pensou que saber que se sentirá saudades fosse como ter gases, mas a dor aguda era demasiado semelhante para ignorar. Percebeu que ainda estavam de mãos dadas, como se o tempo perdesse o ritmo e aquele momento, que já era do amanhã, fizesse de conta que era ontem, quando eram felizes e do pra sempre nem se duvidava. Pensa em soltar os dedos com leveza mas o tempo futuro já pesa em seus ombros, decide, então, apertar forte sua palma contra a dela ao mesmo tempo em que mente – estou atrasado – para dizer uma verdade – preciso ir. Ela é quem solta a mão, ela é quem se levanta, ela é quem pega aquela bolsa miúda de quem carrega poucas coisas pela vida e menos ainda, arrependimentos, ela é quem se curva como quem vai deixar um beijo e ela é quem recua quando encontra os olhos dele fechados. Quando enfim abre os olhos ainda o banco, ainda os patos e o sanduíche que seria o almoço segue intocado ao seu lado. Suspira, mais animado, aquele vazio, aquele doer, há de ser fome.

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Estava pensando que tenho feito o percurso de Mr. Satterthwaite, mas inverso. De protagonista a espectadora da vida. Hoje as coisas que mais me comovem não são as que me atingem diretamente mas as que observo (ou pelo menos é assim que percebo, vai que tá no meu ponto cego). Por exemplo, assistindo o jogo de vôlei agorinha mesmo me comovi muitíssimo não com o jogo em si, mas com a emoção do comentarista, a empolgação que ele empresta à voz quando comenta o desenvolvimento de uma atleta, o deslumbre que ele parece sentir ante uma jogada esteticamente bonita, um lance mais preciso, um ataque forte, um bloqueio bem posicionado. Não é que isso seja inédito, desde que me lembro de mim sinto a emoção alheia mediando a minha, mas é interessante perceber como isso avançou ao longo do tempo.

Será que estou vivendo ou só esperando o próximo fim de semana?

Como seria minha vida se eu não tivesse tanta preguiça de descobrir?

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