Mimosas

O que nos faz humanos é a incompletude, a falta. Não só a existência da falta mas os esforços que fazemos por conta dela, o quanto nos dedicamos a escamoteá-la,  disfarçá-la, esquecê-la, negá-la e afins. Uma das mais e menos bem sucedida tentativa humana é a comunicação. A gente manda brasa na fala, na escrita, nos desenhos, whatever, com a ilusão gostosa de que pode ser que alguém, em algum lugar, receba a mensagem. E recebem, mas o quem, o onde, o quando e o o quê não são o que planejamos. Com sorte, um deles o é. Na maior parte dos casos, a gente atira no que viu e acerta no que não viu. Isso pra dizer que certamente a Fal e a Dani da Fal, envolvidas nesta conversa, não podem ser responsáveis pelo despirocamento de escrever um comentário do tamanhão que escrevi, muito menos pelo seu conteúdo desgrenhado:

Cheguei mais de 21hs em casa, exausta depois de três expedientes na universidade. Fui arrumar a pia (não lavar a louça, ainda não) e quebrei uma caneca querida, chorei. Catei um pão com manteiga, um copo de iogurte e resolvi comer lá em cima. Daí chutei a quina do degrau da escada e, claro, chorei. Piscando as lágrimas, passei o olho pelas notícias e vi: morreu Niki Lauda, lenda da fórmula 1 e eu chorei (não me pergunte se pelos apenas 70 anos dele, se por mim que assistia isso nas manhãs de domingos tão outros, se apenas porque meu mundo não para de se acabar antes de mim). Não dei prosseguimento na conversa com a amiga, não continuei a leitura do bom livro, não escolhi um filme bom na tv a cabo ou netflix. Deitei e fiquei olhando as pás (é assim que chama?) do ventilador de teto desligado (não porque não esteja calor, mas porque ele tá com defeito e eu nunca consigo me organizar o suficiente pra chamar o eletricista, daí estou usando o do quarto de visitas) enquanto o embaçado do dia secava. Antes de entregar os pontos e dormir o sono que não sinto porque amanhã o dia me exige cedo, vim aqui pra ver se havia alguma conversa nova. E havia. “como o seu, meu corpo também está tentando se livrar de alguma coisa. Acho que é de mim” eu devia ter rido, mas eu chorei. “quero ser uma pessoa doce e primaveril” eu devia ter chorado mas eu ri. Mas esse comentário todo era apenas pra dizer que eu, apesar de não fumar, tenho uma cigarreira que comprei na Feira da Ladra. Não sei onde está, claro, mas qual a novidade, ando perdendo até a mim. Eu gargalho ainda, mas sorrio bem menos. Queria mesmo era comprar uma passagem e tomar café da manhã com você em uma padaria meio metida, vamos pedir mimosas?

se alguém estiver se perguntando, sim eu coloquei um comentário destamanhão no post de uma amiga. em minha (pálida) defesa, devo dizer que ela consentiu. Fal, melhor pessoa (procurei e achei a cigarreira, amiga), Drops da Fal, melhor lugar.

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A mesma bagaceira que faz a comunicação ser um sucesso por ser um fracasso (e vício e verso) é, suponho, o que justifica que eu tenha comprado e mantenha uma cigarreira sem ser uma fumante. Ou sendo, mas basicamente só em intenção. Daquelas, provavelmente, que lotam  o inferno, aquele que tal como o entendimento completo, o encaixe perfeito, a relação sexual e A Mulher, suspeito que não existe.

 

Um comentário em “Mimosas

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