Publique-se

Usou a palavra arco já me distraio na conversa.

Eu realmente gosto de Onze homens e um segredo, todo mundo com cara de quem tá se divertindo e ainda mudando o final mega moralista do filme original. Gente curtindo o que tá fazendo me inspira.

Vamos falar de sofrimento, agora a tv fica brincando de aparece e desaparece com as legendas.

Ah, mas não dá pra comparar livro e filme/série. Não dá mesmo não, são dois veículos muito, muito diferentes. Isso não significa, acho eu, que não dá pra avaliar uma adaptação. Eu, por exemplo, não faço questão que tudo que tem no livro tenha no produto áudio-visual. Penso, mesmo, que é um equivoco tentar fazer uma transposição literal. As adaptações que admiro são aquelas que preservam a “essência” dos personagens de forma tal que mesmo quando eles fazem algo no filme que não tem no livro (ou vice-versa) parece que a gente até já viu ele fazendo aquilo, de tão compatível e coerente com as demais ações dele. Gosto de uma adaptação que ao colocar o personagem para reagir de determinada forma em uma situação que eu desconheço, mesmo já conhecendo o livro, me faça pensar: arrá, faz sentido ele ter tomado esta decisão. Um exemplo de uma adaptação primorosa é E o vento levou. Tem um bocado de coisa no livro que não tem no filme mas eles conseguiram manter o espírito da personagem, as transições, a evolução, tudo. Inclusive saudades, Scarlett e Reth, acho que vou reler.

Todo dia a mais é um dia a menos.

Com tanta gente querida morrendo, minhas referências sendo combatidas ou mesmo negadas, acho que não estou exagerando ao dizer que o (meu) mundo está acabando. Como uma amiga comentou: dói. É bem triste quando o mundo-da-gente morre antes que nós mesmos – não saberia dizer se é sempre assim, nunca morri antes. Esse fim de semana vi um filme de cachorro (sim, daqueles) com moral da história feito pergunta: seu propósito no mundo, qual é? o cachorrinho lá tem uma resposta possível: divirta-se, quando der, salve pessoas e lamba o máximo que puder as pessoas que você ama.

Uma certeza que eu tenho é que Keira Knightley deve ser uma pessoa maravilhosa, de excelente trato, flexível, esperta, cativante e com um ótimo agente porque não consigo imaginar outros motivos pra ela ser sempre protagonista de filmes com roteiros excelentes sendo tão nhé. Vem aí: Colette.

Tem muito filme bom e tem O Homem Que Matou o Facínora. O personagem de James Stewart representa e sintetiza o estado democrático de direito, a insistência na Lei como possibilidade de mediação da vida em sociedade, a tecnologia, a civilização, a vida menos desigual, enquanto Valance representa a desordem, os métodos tradicionais, a barbárie, a violência como atalho, a vida antiga. Mas não só Valance, né. Doniphon também. E eu amo que ele, Doniphon, reconhece a necessidade de ser superado. Ele sabe que apesar de ser seu o tiro, quem realmente matou Valance foi Stewart e sua teimosia em inventar um mundo diferente. E sabemos nós, que assistimos, que ao aceitar o papel de quem matou Valance, Stewart, concomitantemente matou também Doniphon – simbolicamente, apenas, o que torna ainda mais doloroso – e contraditoriamente fez isso tudo na lógica inversa do que acreditava: um pacifista e adepto das leis só pôde exercer sua influência nesta direção ao ser reconhecido e celebrado por um ato de violência. Tem muito filme bom e tem O Homem Que Matou o Facínora. Fica aquela inquietação: saberia eu prosseguir fiel ao que acredito sem supôr que em algum lugar, há um Doniphon a me sustentar? Ou, além, conseguiria eu reconhecer que represento o que precisa ser abandonado e mesmo doendo me fazer ausência e silêncio?

doniphon

E é meio melancólico ver que o meu mundo que morre antes de mim leva junto tanto do que me fez. Como interlocutores pra falar de Doniphon e sua dor.

 

 

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