A dor da gente

A Renata Lins disse assim: assiste After Life. E eu fui ver, claro. E é o que a vida devia ser. Com mais samba, futebol e cerveja no lugar do uísque, mas basicamente o que a vida devia ser. Um trabalho que faz algum sentido mas que não ocupa muito tempo. O mar pertinho. Suporte psicológico aparentemente sem estigma. Questões materiais de sobrevivência superadas. Eu já falei  do mar pertinho? E gente. Gente que ama a gente. Gente que a gente não vai com a cara. Gente que se importa. Gente estranha. Gente gentil. Gente que ainda é gente pequena. Gente que já é gente há muito tempo. Gente perdida. Gente que é farol. Gente que já foi e os outros nem sabem. Gente que vai ficando. Gente banal. Gente banal mas que em um certo ângulo, quando a luz bate no prisma, se torna a nossa gente especial. Gente que nem a gente e gente totalmente diferente. Gente que a gente nem entende. E nem precisa. Gente. O Chico Buarque lamentou: “a dor da gente não sai no jornal“, bom em After Life ela sai sim.

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Pensando em usar todos os nomes de blogs que já tive como categorias nesse aqui.

Provavelmente eu devia voltar pra análise.

Duas amigas amadas tendo filhos no espaço de poucos dias. Lá na França, então eu só faço de conta o cheirinho de leite e o peso gostoso junto ao peito.

O problema em GoT começou quando destruíram o jardim pra construir um gazebo ou um coreto, sei lá. No lugar de escreverem cenas que são compatíveis com o que os personagens “são”, com o que poderiam sentir, decidir, pensar e a partir daí escrever mais cenas que seriam consequência dos pensamentos, decisões e sentimentos anteriores; os roteiristas escolhem situações que eles acham que deveriam acontecer, que favorecem que se provoque emoção A ou B, que se cause este ou aquele choque nos espectadores, que permita reviravolta e sei que lá e aí encaixam à força os personagens nestas situações. O problema de GoT é que o material base dos livros trata do tempo de forma amalgamada – quem o personagem é deriva de tudo que ele viveu e do que ele anseia viver – e as últimas temporadas da série tem foco no que os personagens devem vir a ser.

Eu penso que existem dois tipos de escritores, os arquitetos e os jardineiros. Os arquitetos planejam tudo antes do tempo, como um arquiteto constrói uma casa. Eles sabem quantos aposentos a casa terá, que tipo de telhado terá, onde os fios estarão passando, que tipo de encanamento terá… Eles têm a coisa toda projetada e desenhada antes mesmo de pregarem a primeira tábua. Já os jardineiros cavam um buraco, jogam uma semente e regam. Eles meio que sabem que tipo de semente é; eles sabem se plantaram uma semente de fantasia ou uma semente de mistério ou o que quer que seja. Mas conforme eles regam e a planta cresce, eles não sabem quantos ramos ela terá, eles descobrem isso conforme ela cresce. Eu sou muito mais um jardineiro do que um arquiteto.” (George R. R. Martin)

Queria encher a banheira mas estou com preguiça só de pensar em enxugar o banheiro depois.

Eu era mais contente quando a saudade era inventada.

Ela sabe que já perdeu todos os cavalos selados. Já não é jovem, pra começar. Bebeu demais e leu de menos. Nunca embarcou em nenhuma aventura. Nunca viveu um amor desses de cinema. Tem amigos, mas não é a melhor amiga de ninguém e ninguém é a “sua pessoa”. Acordou, estudou, trabalhou, comeu, dormiu. Olha pra trás e sabe que nunca experimentou o gosto de algo realmente especial. Não é tarde demais, claro, em todos os filmes ruins de sábado a noite, quando não estão explodindo carros e prédios, repetem as boas lições de recomeço. E não só do outro lado da tela. Não foi seu primo que emagreceu, trocou de emprego e tem um segundo casamento feliz? Não foi sua vizinha que fez vestibular e começou outra faculdade? Ela ainda pode. O quê não é muito claro, mas pode, se. Se mudar de vida. De rumo. Não beber o vinho. Não comer a massa. Não dormir tarde. Não ficar em casa aos domingos. Não beliscar na frente da tv vendo futebol. Não inventar desculpas ruins para convites que devia aceitar. Se. Ainda tem uns tantos anos pela frente sem ataques cardiovasculares e complicações assim assim. Talvez. Com sorte. Se. Se. Se. Se ela não gostasse tanto de quem tinha se tornado. E não tivesse tanta preguiça de se desconhecer.

 

 

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