Fé na vida, fé no homem, fé no que virá?

Eu não gostaria de soar nem de me sentir alarmista, derrotista, niilista nem nenhum ista do gênero. Mas eu leio as coisas que escrevo (e, pior, sei as que não chego a escrever) e sei que se a descrição não é exata, não é totalmente inverídica.

Eu gostaria de experimentar o fogo e a vontade de lutar que me constituíram desde a elaboração da Constituição de 88 que eu acompanhava da forma confusa e parcial que uma pessoa de pouco mais de 10 anos apreende e significa a realidade.

Eu gostaria de me sentir inspirada pelos movimentos populares, sua organização e mística, como na década seguinte. Gostaria de me sentir esperançosa e combativa como nos anos que se sucederam quando o governo federal já era “dos meus” mas ainda tinha tanto pra cobrar a fim de garantir avanços além do óbvio.

Sabe aquela canção: na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê? Eu estive mobilizada e atuante em todos estes lugares e fechando avenidas e fazendo caminhada em BR e acampando em reitorias e participando de assembléias de associações comunitárias ou formações nos sindicatos de trabalhadores rurais.

Eu sempre acreditei não em uma transformação mágica mas na caminhada constante. Nunca tive muitas certezas além da convicção de que um mundo melhor era, senão possível, necessário. Fé na vida, fé no homem, fé no que virá. “Você era jovem”, ouvi um dia desses. Não é a pouca capacidade pulmonar do meu corpo na meia idade, no entanto, que me sufoca, mas o ar irrespirável no ambiente.

Sim, eu estarei na greve geral e em todas as manifestações que convocarem. Sim, eu acho que devemos ocupar as ruas e organizar uma resistência. Sim eu apoiarei as decisões que nos tirem de impasses e reconstruam estradas a serem trilhadas. Mas tenho a impressão de que já não verei, na outra metade da vida que talvez eu tenha, sequer voltarmos – como país – para o ponto em que já estivemos. O que se perdeu não retorna com uma vitória eleitoral qualquer.

Eu, por exemplo, nunca vou esquecer o desprezo que eu sinto por pessoas que eu amava e o desdém que tenho por mim mesma por ter vivido estes sentimentos.

Eu acredito que é possível e necessário sair do ciclo de espanto, autocomiseração e horror que repito desde a eleição (no qual, suspeito, não estou sozinha). Reencontrar a fé na vida e nas pessoas para que algo venha. Se alguém suspeitar comos, tamos aê.

2 comentários em “Fé na vida, fé no homem, fé no que virá?

  1. Não sei quando foi a última vez que nos comunicamos neste canal. Alguns anos, com certeza. Queria poder te abraçar agora, acolher a sua dor e dizer que o neném que acabou de sair do meu ventre me obriga a ser otimista e dizer que a vida vai encontrar um caminho. Te amo, minha amiga.

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    1. Sim, eu sempre acho que o necessário tende a se impor, no macro, ao possível. Então também confio que a vida achará seu caminho a tempo pra Diego conhecer um mundo de esperança ❤ (e eu, mais velhinha e cansada, vou cantar que nem o Alceu Valença: tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais)

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