O que eu queria de ti, Lisboa

O que eu mais queria de ti, Lisboa, não era o jardim feito quintal, para onde eu arrastava livros, sonhos e vontades e me deixava levar pelo riso das crianças aprendendo a correr de bicicleta, pelo murmúrio da conversa dos velhos em bancos ao sol, pela alegria ruidosa dos adolescentes em bandos. Não. Não era, Lisboa, tuas ladeiras enigmáticas, tuas calçadas trançadas ou tuas cores que embevecem, não era isso, Lisboa, que eu queria, agora, de ti, nem o melodioso das falas, o doloroso dos fados, o sossego das praças. Não queria a alheira cheirando, os vinhos baratos, o pão de casca dura e miolo perfeito. Nem a casa de paredes grossas e chave engraçada.

O que eu queria agora, Lisboa, não era nem mesmo o cheiro de rio e mar e água por todo lado, não era a rua enfeitada para festa antonina, não era o vaguear sem destino a qualquer hora, o café na esplanada, o pastel de nata morninho. Não era, não era, não era, Lisboa, a biblioteca de janelas imensas, as salas de aula que emanam passados clericais, os livros na mesma língua tão outra. Não era o alfarrabista da esquina. Não era a feira, não era o mercado nem a caixa grande com frutas que eu nunca pensei que ia gostar e seus vários tons de suculência. O que eu queria de ti, Lisboa, não era deslizar a mão nos azulejos frios das frentes das casas. Não era passear de eléctrico. Ou percorrer ruínas em castelo. O que eu queria de ti não era a criança perigosamente pegando carona no bonde, nem a velhinha teimosa em bengalas e ladeira. Não era, Lisboa, a rua apertada no Bairro Alto, em turistas e luas. O que eu queria de ti, Lisboa, não eram os museus semiabandonados, os restaurantes abarrotados e os cenários de cinema.

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O que eu queria de ti não eram os festivais, os piqueniques, os sinos domingueiros, os artistas na rua, as ruas repletas. O que eu queria de ti não era o tempo que se faz lento no cemitério. Não era o perfumado das flores e sardinhas assadas. O que eu queria de ti não era a imperial solitária, a fumaça das castanhas, a refeição farta e caseira do Bitoque.  Não queria, Lisboa, agora, nem a açorda quente nem o camarão frio. O que eu mais queria de ti, Lisboa, não era a travessia de barco, a outra margem falando mais de Rosas que de Pessoas. Nem as estações, mediadoras da beleza, seja em chegadas ou partidas. Não queria, Lisboa, tuas pedras antigas nem os embelezamentos de caminho turístico badalado. Não queria, Lisboa, o azul. Nem o alaranjado do sol que esquece de deitar. O que eu mais queria de ti, Lisboa, agora, não era o avermelhado das folhas nas calçadas, nem o lilás encarapitado nos galhos, nem o suave e branco frio que assovia no vão da janela.

Não, Lisboa, o que eu mais queria de ti, o que anseio encontrar em tuas esquinas, em cada paragem, esplanada, azulejo, fotografia, lembrança, história, o que eu mais queria de ti, agora, vorazmente, como quem se afoga, sem fôlego e sem tempo, o que eu queria, como quem sonha, arde, adoece, o que eu queria como quem já não suporta o vazio, o interdito, o banido, o que eu queria, em desespero, angústia, voragem, o que eu queria, mesmo que resquício, fragmento, vestígio, o que eu queria, Lisboa, era saber quem fui, quando em ti, habitava.

 

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